sábado, 22 de outubro de 2011

Se o amor é cego, deixe-me apenas ser míope.




“And so it's
Just like you said it would be
Life goes easy on me
Most of the time
And so it's
The shorter story
No love, no glory
No hero in her Sky”

Blowers Daugther é uma música que sempre me chamou a atenção. Uma das canções mais sofridas, emotivas e belas que já escutei. Na versão em português há uma frase que embora não contida na versão original, dá um significado ainda mais especial à música: “... É isso aí, como a gente achou que devia ser...”. Escutar essa música hoje me faz descer duas lágrimas: uma de tristeza e outra de esperança. Pode parecer contraditório como dois sentimentos se paralelizam em minha alma, mas são justamente esses que despertam quando escuto esta canção, especialmente agora que vivo este intervalo existencial, onde a vida insiste em colocar mais uma virgula ou reticências em seu texto já difuso...

Este foi um ano muito intenso em minha vida... Adquiri muitas coisas materiais que tinha vontade; encaixei-me em instituições de ensino relevantes; redescobri-me fazendo terapia... Ao mesmo tempo, abri mão de uma série de coisas: de um descanso merecido nas férias, de um doutoramento e, por fim, de um casamento. Deveria estar muito triste, afinal, os “danos” foram maiores do que as “compensações”. Mas não estou... Pelo menos não da maneira como a maioria das pessoas esperassem que eu ficasse. Isso não significa também que eu esteja em júbilos, extremamente feliz.

Não... Rupturas nunca são fáceis, mesmo quando necessárias. Sair de um relacionamento nunca é uma tarefa simples, mesmo quando se é urgente, quando não se é feliz, quando há traições, mentiras, violência, etc. No meu caso, quando os motivos foram outros, o processo ainda se torna mais complexo. Há vínculos que são construídos e que se tornam barreiras quase intransponíveis, mesmo quando o fim já se preludia e o timbre de um ciclo que se encerra corte sua alma sonora.  No meu caso específico, “precisei” sair, respirar, dar sentido à minha vida. Ao lado de minha ex-esposa não era possível. Não me entendam mal...tinha uma esposa maravilhosa, companheira dedicada, amorosa, gentil, leal. Era tudo aquilo que buscamos quando vamos chegando numa uma idade - entre a juventude e a perda da alegria que a madureza acarreta - e se quer alguém para descansar nos braços após um dia turvo de trabalho. Este alguém eu possuía. Na verdade, embora maritalmente  não estejamos mais juntos, ficou a amizade, o carinho e o respeito por uma longa historia. Isso não se perde da noite para o dia, e, muitas vezes, términos não significa que anulemos vínculos fraternos. Mas a grande questão era que não me sentia mais no casamento. Relações formais exigem muito de nós. Não era mais capaz de me entregar completamente a esta vida. Não conseguia ser, de minha parte, o esposo dedicado, o ouvido atencioso, o corpo presente que uma esposa com tamanhas qualidades exigia de mim. Precisei, enfim, tomar esta decisão. Foi doloroso (vem sendo), mas ter estado com uma pessoa como a Ana por todos esses anos me fez perceber o tesouro que carreguei comigo até o altar: na semana em que sai de casa, ela mesmo me ajudou a fazer as malas. Mesmo com lágrimas na alma, me deu um beijo e desejou-me boa sorte. Neste dia me senti triste por não amá-la como ela merecia. Por outro lado, vi que o que se constrói alicerçado na rocha da amizade, uma "viagem distante" nunca tem clima de vazio eterno. 

Não me arrependo , por hora, de ter-me separado. Da mesma forma como jamais me arrependerei de um dia ter casado, ainda mais com a Ana. Foram os melhores anos da minha vida os que passei ao lado dela, seja como amigo, namorado, noivo, esposo. Cresci muito espiritualmente, materialmente, intelectualmente ao lado dela. Mas agora chegou a hora d’eu crescer como homem/adulto, de me tornar responsável somente por mim, de crescer para outros horizontes, só que desta vez sozinho.

A estrada vem parecendo tortuosa, os caminhos desencontrados... Não tenho mais a bussola que era minha esposa, o norte que era minha casa, a seta que era o sentido da minha vida. Tenho que agora buscar estes novos sentidos, sozinho. Confesso que tenho medo. Confesso que por vezes me sinto covarde. Confesso que me entristeço muito ao relembrar que a “culpa” foi minha por não ter tido a competência afetiva para sustentar uma relação conjugal que tinha tudo para ser eterna. Por outro lado, tenho a convicção de que fiz a escolha certa. Manter a amizade com a Ana e auxiliá-la em suas primeiras dificuldades pós-separação, saber que sua mágoa por mim é inversamente proporcional ao sentimento de compaixão que ela tem me acalenta bastante. Doravante os temores que se descortinam neste novo palco da minha existência, tenho certeza que sairei vitorioso. O inimigo é velho: sou eu mesmo. As armas são novas: a honestidade com meus sentimentos. O apoio é eterno: o daqueles que verdadeiramente me amam. Enfim, mesmo triste, a esperança é minha bandeira.

“And so it's
Just like you said it would be”

Att.
Diego A.

Amar é preciso, navegar para longe disso...mais ainda!



Se o amor é cego, queria ao menos ser míope... Talvez assim pudesse contemplar este sentimento parcialmente. Sim, tenho dificuldade em amar. Digo “eu te amo”, quando poderia dizer “gosto de você”. Digo “eu te quero bem”, quando deveria dizer “eu te amo”. Não acho que isso seja a banalização do termo amor, mas antes tentativas nossas em querer definir e viver aquilo que é mais abstrato do que a nossa própria concepção de Deus; não é ao acaso que procuramos associar o nome de Deus a uma das variantes terminológicas do conceito de amor em Grego: “Ágape”. Em grego, este substantivo significa “incondicionalidade”, entretanto, julgo que o utilizamos em nossa tradição judaico-cristã, antes, para denotar justamente um sentimento transcendente, doravante abstrato. Enfim, tenho eu mesmo dificuldades em compreender, ou melhor, interpretar este conceito, seja o filosoficamente, seja vivencialmente. Só sei que quando gosto de alguém e quero-a bem em grau superior a uma mera obrigação moral/espiritual, costumo julgar que isso é amar... Talvez possa estar errado...ou não...

Então, porque a dificuldade em amar? Simples...não sabemos definir onde termina a amizade e começa o amor, onde começa a paixão e termina a amizade, ou como se sustenta a paixão, alicerçando na amizade para transcender no amor. Enfim...o amor aparenta-se com um verbo, corrente, fluido, que não se prende...a paixão ao contrário quer ver presa seu objeto, e a amizade, em sua displicência, se faz de livre mas não assume que quer um mínimo de exclusividade também. Conciliar amor, paixão e amizade, parece o trinômio perfeito de qualquer relação, mas a harmonia entre estas instâncias parece tão utópico quanto se apaixonar sem se apegar, manter uma amizade sem se relacionar, ou amar, na mesma proporção, um filho, uma esposa, deuses ou a natureza.

Destas dificuldades que temos (e que os gregos também se deparavam) julgo que a mais difícil de resolução é em relação à oposição/complementaridade entre “Éros” e “Ágape”, entre a paixão e a incondicionalidade, haja visto parecer caminhar mais razoavelmente a “Ágape” com a “Philia” (amizade). Estabelecer os limites claros entre este tipo específico de amor e a paixão é muito importante uma vez que nos ajuda a colocar as emoções em ordem, os sentimentos em hierarquias e as prioridades em relevância. Não se trata, portanto, de mera questão conceitual, mas antes, de urgência existencial. Sei que de uma paixão se pode derivar o amor incondicional, mas hoje tenho a convicção que depois que instalado o amor, nem sempre aquela paixão de outrora pode reviver com o fervor necessário para superar barreiras que a racionalidade ou o cotidiano emperra, na qual somente a pulsão voraz de uma carga extra de oxitocina pode fazer transpor. É por essa razão que os Gregos separavam muito bem conceitualmente o amor “Éros” do amor “Ágape”. Ambos não deixavam de serem amores, mas com doses, instâncias, motivos e expectativas distintas... o complementar ou dissociar, acabava por ser um mero capricho dos Deuses. Disto, quase estou tendo fé, dada minha imensa inabilidade.

Enfim, continuo refletindo sobre o amor...assim como penso diuturnamente em Deus. Não numa perspectiva religiosa, genuflexa. O que assemelha ambas as reflexões, por hora, é que a certeza de uma indefinição é muito mais evidente do que a expectativa de um resultado objetivo. Quando a razão não oferta mais explicações convincentes, para Deus, sobra a fé....para o amor, a esperança de vivê-lo em sua plenitude. Sigo amando (mal) seja lá o que esperançosamente isso realmente queira dizer. Não sei precisar ao certo os limites do amor e do “querer bem”, de ser verdadeiramente apaixonado e de ser tolo por deixar escapar por entre os dedos a verdadeira felicidade.

Taí, mais uma palavra a ser (in)definida: felicidade...

terça-feira, 12 de julho de 2011

Projeto Ágora


Como havia dito no post fantasma que escrevi antes e que tive que apagá-lo, este semestre foi muito interessante profissionalmente. Das partes boas que aconteceram, preciso mencionar o “Projeto Ágora”. Os frutos deste empreendimento ainda não renderam, até mesmo porque ainda está em sua fase embrionária. Ainda estamos fazendo testes que vão desde o formato do programa até o nível de aceitação do público.
Em síntese o “Projeto Ágora” se constitui num grupo de amigos e parceiros profissionais que se encontram uma vez por semana em minha casa para debater assuntos gerais, transmitindo estes diálogos via “twittcam”. A ideia não é em si original, mas o formato que pretendemos o é. A cada semana imprimimos temas variados e buscamos reflexões que fogem do rigor didático de uma sala de aula, mas que prima pela descontração, informalidade, sem perder o conhecimento de causa. Em alguns, somos felizes nas colocações, em outros, somos apenas nós mesmos opinando sobre assuntos que nos despertam a reflexão, mesmo que espontaneamente. Há ainda um momento no programa que damos o nome de “index”, e neste, procuramos ofertar indicações de livros, filmes, documentários, sites e blogs que incrementam nosso debate ou que julgamos relevantes para o arcabouço cultural de quem nos assistem.
Um fato curioso que sondou este início de projeto foi o nosso público-alvo. A princípio e naturalmente, ele se constituiria de nossos alunos. Somando, seríamos mais de doze colégios envolvidos no empreendimento e a expectativa de que teríamos muitos “views” era enorme... E não deu outra: no primeiro programa tivemos um pico de mais de 700 acessos, que por falhas técnicas se estabilizou na casa dos 500. Esta média se manteve pelos dois programas seguidos, reduzindo significativamente nos dois últimos. Procurei, neste ínterim, verificar as causas. Das mais variadas justificativas que encontramos, uma foi reveladora: grande parte dos que nos assistiam esperavam que fizéssemos uma linha de “stand up comedy”. Julgaram muito “sério” o programa e até “pesado” o tipo de reflexões que fazíamos. Muitos alegaram que o programa não tinha a “diversão” que possuía as minhas aulas diurnas; outros alegaram que não conseguiam acompanhar bem o tipo de discussão que empreendíamos e outros simplesmente disseram que não era o que esperavam que fosse. No entanto, outro dado nos surpreendeu: uma parte significativa de nossos últimos views era representada por ex-alunos nossos, por professores e por pessoas que foram indicadas por outros para assistirem, inclusive de fora do Estado... Tudo isso vem nos levando a repensar o formato do programa. É claro que precisamos ainda melhorar em muita coisa, seja na dinâmica das falas, no propiciar de maiores intervenções de quem nos assiste, na seleção dos temas, na captação de áudio/vídeo, na iluminação, nos mecanismos de divulgação, etc. Temos clareza disso e estamos repensando uma série de coisas. No entanto, o nosso maior desafio hoje vem sendo em decidirmos qual deverá ser o nosso foco: se serão público inicial ou se vamos desenvolver o programa pensando nesta quantidade de views atuais que tivemos e no tipo de público que acabou por se configurar.
Muitas propostas estão se desenhando para o próximo semestre. Já há uma expectativa de realizarmos uma versão do programa na Pizzaria Pirineus – que é uma apoiadora do projeto. Realizaríamos um debate ao vivo, onde nosso público poderia interagir mais enquanto desfruta de um rodízio oferecido pela casa. Outra proposta é uma específica que estamos configurando junto com o Kaizen Centro de Ensino. Nesta, o foco realmente são nossos atuais alunos e o formato obedecerá a uma estrutura mais objetiva de aulas. Optamos por esta parceria com o Kaizen, justamente por não se tratar de nenhuma escola específica; não vindo, portanto, a comprometer nosso projeto e nem o público cativo de outras escolas.
Independente da continuidade ou não deste projeto, uma coisa ficou clara para mim: a educação é possível de ser feita para além dos muros da escola. A internet se configura com uma ferramenta ilimitada de transmissão de conhecimento, de fomento de criticidade, de quebra e redimensionamento de paradigmas. Mesmo que o “Projeto Ágora” não obtenha o sucesso comercial que esperamos, uma coisa é certa: divertimo-nos bastante, estreitamos amizades, comemos bem, e acima de tudo, levamos um tipo/nível de reflexão que por vezes somos tolhidos no cotidiano profissional, seja pela obtusidade do vestibular, seja pelo patrulhamento ideológico do politicamente correto que empasta a sociedade burguês-conservadora que vivemos.
Abaixo, coloco os links dos programas que foram editados neste mês de junho. Infelizmente, só pudemos registrar três destes, mas já dá para terem um contato com nosso trabalho – que se tudo der certo, será bem mais prolífico neste próximo semestre, como é de nosso intento.




Att.
Prof. Diego A. Moraes

segunda-feira, 11 de julho de 2011

(Re)iniciando


Estou de volta ao blog. Quando criei este, pensava que conseguiria manter um post por semana, mas logo na primeira escrita decidi por fazer deste um exercício de férias. Até mesmo porque, passado alguns acontecimentos, teria uma condição melhor de avaliar os fatos e decidir se são ou não relevantes para se tornarem públicos. Bem... aqui estamos nós...
Muita coisa aconteceu neste semestre. Ouso dizer que foi o mais intenso emocionalmente em toda minha vida e olha que já passei por separação de pais, falência financeira familiar, demissões, término de outros relacionamentos. Por razões específicas este se configurou como o que mais mexeu com toda minha estrutura existencial. Coloquei valores na lona, amores em suspenso, olhares em horizontes distintos... No entanto, o rearranjo disto tudo teve um nome: terapia.
Sempre tive vontade de mergulhar mais fundo em meus temores, angústias, complexos, medos e sentimentos. Fazer terapia sempre foi uma alternativa viável e desejável por mim. No entanto, sempre me vi com outras prioridades, uma vez que um bom terapeuta custar muito caro. Porém, me vi na necessidade de buscar um ou corria o risco de “entrar em parafuso”, como diria minha mãe. A opção foi por uma linha de tratamento coincidentemente próxima filosoficamente do que estudei no mestrado em filosofia:  “Gestalt”  
Logo na primeira sessão, me vi diante de uma realidade drástica: podemos ser inteligentes, articulados, bem sucedidos, etc., porém, no fundo somos analfabetos sentimentais, manipuladores e grande parte do que apresentamos aos outros tratam-se apenas de múltiplos personagens que criamos para viver nesta selvageria chamada mundo. Viver a “autenticidade”, reencontrar o “eu”, desvencilhar das “mascaras” trata-se de um dos maiores desafios do processo terapêutico, consequentemente os mais dolorosos.  
Venho tendo sessões semanais de terapia. Aquele velho clichê do psicólogo sentado numa poltrona, uma meia luz na sala e você estendido num divã aveludado em posição de fragilidade faz todo sentido. Uma coisa é você ver isto em filmes, tiras ou pela descrição de alguns. Outra coisa bem diferente é estar naquela condição, disposto a enfrentar o seu pior inimigo: você mesmo.  Para mim está sendo muito difícil certas sessões. Com o passar dos anos acabei criando uma couraça muito forte chamada “razão”.  Diversas circunstâncias me levaram a isto, embora eu seja o responsável por este traço de personalidade. Desde muito cedo, me vi na necessidade de superar diversas limitações que possuía ao mesmo tempo em que sentia a necessidade de mascarar várias outras. O resultado disto tudo é que acabo sempre vendo as coisas por um sentido extremamente pragmático, objetivo, lógico, desconsiderando sentimentos, emoções, impulsos e desejos. A consequência deste resultado, em longo prazo, nem sempre vem acarretado de tranquilidade e ‘soluções’, antes, me vejo ao final de cada processo muito mais fragilizado do que se tivesse explodido e colocado tudo para fora, do que se não tivesse pensado tanto, articulado tanto e simplesmente vivido, nem que depois isto se mostrasse um erro.  O grande desafio do meu processo terapêutico está sendo equilibrar estas dimensões, sabendo usar cada instância em seus momentos apropriados ou sabendo conjugar ambas. Não posso ser somente emoções e sentimentos, mas também não posso levar a vida como se esta fosse um sistema binário. Esta aí uma equação difícil de ser resolvida...
Recentemente estou de férias da terapia, assim como estou do trabalho. Está sendo um momento de colocar em prática as resoluções que foram construídas neste processo ao longo do semestre. Confesso que não está sendo nada fácil. Abrir mão daquilo que é caro sentimentalmente estraçalha qualquer couraça psicológica. Desenvolver novos afetos não é uma tarefa tão fácil e coloca muitos mestrados e doutorados no bolso, tamanho o seu desafio. (Re)construir relações, se reposicionar frente ao mercado de trabalho são tarefas que exigem muito de nós e a possibilidade de tudo dar errado frente às nossas inabilidades são imensas.  Mas enfim, fiz determinadas escolhas e devo seguir em frente. Não sei se conseguirei romper com tudo o que é urgente, encaixar tudo o que necessita ser, resolver tudo o que espera e comtemplar tudo o que desejo. Mas preciso tentar... E isto é algo que não posso mais me furtar emocionalmente e racionalmente. 

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"A escola não educa, a escola qualifica o filho educado" (Içami Tiba)


Nesta semana recebi um email encaminhado pelo diretor de uma recente escola que comecei a lecionar. Sempre que sou convidado por instituições de educação básica para dar aulas, sobretudo de Filosofia e Sociologia, a demanda vem acompanhada da expectativa de que eu me converta, num intervalo de 50 minutos semanais, em arauto do evangelho ideológico burguês. Evangelho, porque se trata de uma justificativa moral, cristã, de “construção de valores”; burguês, porque esta prédica está eivada de interesses medíocres.
No fundo, o que se espera é que a Filosofia (entendida ainda por estes como sendo a famigerada “moral e cívica”, do tempo de meus pais) seja o instrumento capaz de levar os infantes ao desenvolvimento de valores que podem ser postos em paralelo, tais como: respeito/servidão; cordialidade/sujeição; cidadania/apatia. O professor, neste caso, verte-se em instrumento de domesticação, além de profissional responsável, na melhor das hipóteses,  por um processo que deveria ter sido iniciado no único lugar onde ele jamais deveria ter saído: o próprio lar.
Há um provérbio que diz que a sociedade é um grande corpo no qual a família é a sua célula-mater. Daí se conclui que uma célula primária doente gera uma metástase que afeta toda a estrutura corporal: “Família doente, sociedade doente”. O que percebo é que a própria sociedade já se deu conta disso, mas não se julga capaz de operar uma profilaxia própria na sua estrutura interna, e com este desvio tenta projetar, a todo (e alto) custo a solução, a cura, para as instituições de ensino. Crê-se que o professor é o médico curador de almas, mas mal sabem que muitas vezes este mesmo vem de um processo também enfermiço, uma vez que faz parte dessa mesma sociedade... Não se enganem... banco de faculdade não faz ninguém, moralmente, melhor ou pior. A verdadeira educação começa em casa e, no máximo, se estende para a Igreja, o Centro Espírita, a Mesquita...
Dentro dessa linha de pensamento, transcrevo abaixo o texto que me foi enviado. Note que se trata de um texto escrito por quem vivencia dois universos profundamente ligados ao comportamento social: a psicologia e a docência. Segue a sua defesa...

Att.
Diego A.





Valores morais na escola: perigoso veneno! 
Na edição passada, meu artigo versava sobre a permissividade dos pais e a insistência da escola em complicar coisas simples, quando deveria simplificar e levar o aluno a resolver seus problemas analisando a forma mais fácil de fazê-lo.
Aí, alguns dos meus cinco leitores trouxeram-me à lembrança o meu comentário final, "A escola ensina, a família educa". Como se geraram polêmicas (que legal, adoro isso!) e certas dúvidas, é importante refletir sobre o fato:
A escola não tem o direito de ensinar valores morais para a criança: esta é uma tarefa da família!
O papel de uma escola que realmente educa para a vida é de analisar os fatos surgidos nas discussões em sala de aula, quando os conteúdos ministrados, sempre de forma contextualizada com a vida e a realidade façam sentido na vida do aluno (só se aprende aquilo que atribuímos sentido ou valor), onde este aprenda a analisar por si só, para que faça suas escolhas com autonomia, ética e responsabilidade.
Educador dizer o que é certo ou errado anula o sujeito e seu poder de análise, põe em risco a liberdade, destrói a autonomia do estado laico e fere o livre arbítrio. Explicar regras e leis, ensinar o que é respeito, ética e responsabilidade é oportunizar ao aluno a liberdade de se pensar prós e contras de cada ato, optando por aquilo que julga mais sensato, mais coerente, justo consigo e com seu meio.
Dar noções de mundo, de cidadania é papel da escola. Dizer o que é certo ou errado é a família que tem o direito e o dever. A escola pode dizer o que é permitido pela LEI e o que CONTRARIA A LEI, pode e deve analisar as conseqüências dos atos, numa reflexão conjunta; ou seja: uma avaliação das escolhas, dos prós e contras de nossos atos, um despertar crítico, mas sem levar alunos a juízos de valor, ditames de ideologia ou a dependência da opinião de outros, muitas vezes incertas.
Não se pode, na escola, por exemplo, dizer que o que os assassinos da menina Isabella fizeram algo certo ou errado: pode-se informar que matar ou machucar alguém é crime, que isto fere as normas sociais e que a sociedade rejeita com veemência tais atitudes. Dizer que roubar ou matar é errado (ou dizer que é certo) é tarefa da família de origem, é claro, muitas vezes preconceituosa, mas ainda é direito da família.
Se a família é estruturada ensina valores, como justiça, honestidade, sinceridade, respeito e valores morais em geral, fazendo a criança se estruturar socialmente. Ao ir à escola, a criança aprende as conseqüências de praticar atos lícitos ou ilícitos, analisa se respeitar os outros lhe dá o direito de exigir respeito e daí deve ser estimulada a tirar suas conclusões. Se a família é desestruturada e ensina valores que ferem leis e valores socialmente aceitos, é na escola que a criança aprenderá as conseqüências de tais ações e aprende alternativas de conduta, e, por si só, exercer suas escolhas verificando e refletindo sobre sua vida, sua educação familiar e concluindo o que é melhor para si. Se a família não educa de forma adequada, não é a escola que deve assumir o papel dos pais. Mas ao ensinar a pensar com ética, responsabilidade e consciência, evitaremos mais famílias inadequadas em breve.
A escola nas últimas décadas absorveu atitudes assistencialistas, ajudando aos governantes inescrupulosos a manter as desigualdades sociais, promoveu, sem saber a falta de senso crítico e a dependência da maioria da população da "santa" ajuda do governo. Também absorveu funções dos pais, dos dentistas, médicos e psicólogos, num arremedo de ajuda verdadeira que só tira a confiança do aluno e sua capacidade de agir e pensar por si só.
Com isto, muitos valores morais "tortos" e opiniões pessoais de professores passaram a ser ensinadas nas salas de aula, abrindo brechas para que desajustes fossem ensinados pela autoridade na sala, raramente questionadas por alunos que em casa têm pouco ou nenhum diálogo com os pais. A seguir, relato algumas "pérolas" ouvidas de seus professores por meus pacientes;
- "Nordestinos aprenderam a ser preguiçosos, quem trabalha e sustenta aquele povo somos nós, aqui do Sul." (racismo, xenofobia, preconceito e erro de conclusão em poucas palavras)
- "Se você leva um soco injustamente, revide! Pague na mesma moeda" (eu ouvi quando era aluno, há menos de vinte anos, de professor que ainda hoje atua).
- "O catolicismo é a primeira religião do mundo, depois vieram outras seitas. Se é a primeira, é a que é mais certa." (O catolicismo é uma religião relativamente nova; é apenas uma das seitas do cristianismo. Existem muitas outras religiões mais antigas)
Eu mesmo ouvi professores falando que faculdade não ajuda ninguém a melhorar de vida e que o certo é agir no "olho por olho, dente por dente". Por sorte sempre questionei tudo, não ficou em mim nada disso. Ufa!
Quando se acredita que professores devem passar valores morais na escola, corremos o risco de termos mestres com desajustes de comportamento ou ideias distorcidas (e não são poucos que possuem preconceito, rancores, medos) sobre o mundo, passando seus valores pessoais como se fossem verdades da vida aos nossos filhos.
Ao demonstrar uma conduta justa, uma avaliação adequada, critérios e métodos, o professor já fala o necessário de suas convicções e valores. E ajuda com isto. Basta... De resto, é ensinar a pensar e refletir antes de agir.
Pensemos nós sobre o que ensinamos e o que devemos ensinar: ciência e justiça ou "achismo" e parcialidade?


Psicólogo clínico e professor universitário (INESA); especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura.
Email:
 gilmardeoliveira@uol.com.br


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

"E quando vi, eu já era dois" (parte 1)


Venho visitando pouco os amigos... Na verdade, descobri que me restaram um número muito pequeno deles. Um destes está fazendo doutorado na Espanha, o outro, também, só que na Unicamp. Sobraram-me outros três bem próximos e nos encontramos com certa regularidade em mesas de jogos ou no Kwon. Fora isso, venho nutrindo uma amizade legal com colegas de profissão. Poucos, diga-se de passagem, também. Um deles, por coincidência, também está na Espanha a turismo e os outros, viajando pelo norte do Brasil. O que há de comum nisso tudo? Simples – ou tétrico – todos os meus atuais amigos estão longe de mim e mesmo os que estão perto, compartilham de uma não-vida: a virtualidade; ou de uma vida distante do cotidiano: a marcial. Tudo bem, o Kwon me oferece uma gama de “irmãos de treino” que não tenho que reclamar: são atenciosos, hilários, nerds. Possuímos diversas afinidades culturais e que rendem boas conversas (e risadas) pós-treino. Há também casais de amigos muito valorosos, de ótima companhia espiritual e gastronômica. Mas ainda assim falta algo...
Dias atrás reencontrei um velho amigo, daqueles que você se vê precipitado ao contato em tenra infância. Passamos por muitas coisas juntos no início da adolescência, embora nunca tenhamos sido grandes confidentes. Compartilhei com este amigo as primeiras lisergias, os primeiros discos de rock, as primeiras tatuagens, os primeiros vestibulares, as primeiras decepções amorosas... Numa época em que pensei que ia partir dessa para uma pior – e que ele iria junto acendendo o pavio – descobrimos caminhos espirituais distintos, mas necessários em nossa “regeneração”. A partir de então, nos afastamos um pouco. Logo ele se casou e foi ter uma vida mais reservada. A vida seguiu... Mas vez ou outra nos encontrávamos ainda nos corredores da UFG e conversávamos sobre poucas e boas coisas. A vida seguia para mim também...
 Reencontrando esse amigo recentemente, numa confraternização de escolas, me veio um pensamento/questionamento: por qual razão não conseguimos sustentar as mais velhas amizades quando elas são as que mais profundamente nos constituíram? Penso que, geralmente, quando tais amizades começam desde a infância e atravessam a adolescência elas estão sujeitas às intempéries dos hormônios e das mudanças de personalidade. Por diversas vezes ofendi amigos, proferi impropérios, rompi temporariamente relações por mero capricho, crise e inconstância – e olha que nem tenho TPM. Penso que todo adolescente já deve ter findado diversas relações por crises meramente hormonais; devem ser por isso que se arrependem e sofrem muito mais do que qualquer adulto em fim de relação.
Em outra via, existe também um agravante com amizades que florescem cedo: a cultura é uma coisa dinâmica. Refiro aqui a cultura como um conjunto de crenças, valores, costumes e tradições que constitui a identificação de um sujeito histórico-social. A cultura individual sofre transformações e redimensionamentos a vida inteira, mas são em duas fases que penso eu, ela mais se cristaliza: 1) na infância – com a “(des)educação da família”; 2) na adolescência – com a “(des)educação social”. Na primeira fase as amizades que surgem são reflexos da identidade que se construiu. Na verdade, não há nada muito complexo em termos culturais, por isso as companhias afloram. Na segunda fase, começam a afunilar o circulo de amizades. Tais são orientadas por predileções, gostos estéticos, juízos de um mundo paralelo, expectativas de um porvir caricato. E é aqui que começam os problemas (ou não). Com o tempo, estes mesmos gostos que outrora unificaram simpatias, agora se reestruturam e buscam alçar outros voos gustativos e existenciais. E nisso, há rupturas. E em todas elas, o seu efeito brusco promove cortes, ardências e dores.
É fato, não sei se é da natureza (condição) humana ou se é parte da cultura judaico-cristã que estamos inseridos que faz com que não sejamos capazes de aceitar a diferença. O outro é sempre o errado, o indigesto, o herege. Nossas tendências são sempre justificadas, castas de intenções e nobres de projeções. Quando as amizades começam a se efemerizarem – e nem digo por brigas, traições, etc – é por que estas já não encontram mais o calor da afinidade promovida pelo compartilhamento de tendências e experiências. Amizade sincera e madura é algo raro e poucos de nós somos capazes de sustentá-las.  Nós estamos sempre em mudança, mas não podemos aceitar que outros mudem. Compreensível, pois mudanças geram rupturas e a zona de segurança que mantém uma amizade não pode ser atravessada sem percalços. Somos egoístas, enfim, e muitas amizades nada mais são do que duplicações do egoísmo: um “ambi-egoismo” – se é que isso exista.
Nesse trajeto de vida, perdi muitas amizades. Algumas delas (muitas) me sinto diretamente responsável pelo seu fim. Fui intransigente, relapso, distante. Em outras, fui próximo demais, atencioso ao extremo e acabei me anulando. Em todas elas cometi erros que redundaram em um afastamento que só vim perceber seus efeitos danosos tempos depois, bem como suas causas. Por outro lado, muitas amizades se foram por “culpa” não necessariamente minha. Sempre tive um imã para atrair pessoas com sérios problemas emocionais (não mais ou menos do que eu). Muitas dessas exigiam de mim algo além do que poderia oferecer. Queriam que eu representasse a cura para os seus males – que se caracterizavam por uma dose diária de exclusividade e elogios. Algumas dessas amizades eu sinto muita falta. Outras merecem de fato estarem no meridiano atual que se encontram...
Como disse no inicio, me falta algo. Sempre me sinto um apátrida ou um Aquiles tentando provar para mim mesmo que a vida realmente vale a pena e que há um propósito para a sua execução. Não sou depressivo, muito menos maníaco suicida, mas sempre questiono o sentido da existência. Dizem que o vazio existêncial é a ausência de Deus em nossas vidas. Que desde a aludida e metafórica queda do homem, o seu distanciamento se apresenta como angustia profunda por esse retorno. A teoria das almas gêmeas seria na verdade, uma metáfora para a nossa re-conexão necessária com a divindade. Por isso que sempre nos sentimos incompletos nas relações socais, sendo a paixão apenas um anestésico para refrear a nossa crise espiritual... Então as vezes, acho que tenho saudade de Deus!
Mas não me entendam mal. Encontro-me hoje bastante satisfeito com as amizades que cultivo e com o amor que compartilho entre os que me são caros. Com o tempo, aprendi a respeitar mais o momento de cada um – embora eles entendam como afastamento ou não afetividade. Sobraram-me amigos valorosos que, dependendo do contexto, posso sempre contar com um ou outro. Aprendi que o grande equivoco é buscar a integralidade da cumplicidade. Ninguém pode me entender completamente, assim como não posso entender completamente os outros. Tenho minhas crises e somente a mim competem a sua resolução, assim como os outros têm as suas e competem a eles a administração. Pode parecer muito frio de minha parte, mas vejo as amizades nessa relação de custo benefício: elas servem para partilhar momentos felizes ao nosso lado e nos escutar quando precisamos não de resolução, mas apenas de atenção. O resto compete somente a nós, seja em cuidarmos de nossa carência, de nossa solidão, ou de gerirmos o nosso afastamento de Deus.

Att.
Diego A.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Entre o ócio e o negócio



É chegado o fim do ano letivo. Depois de metade de uma década venho me questionando acerca da minha continuidade neste ramo de entretenimento, arte, padecimento, menos educação...Conversando com alguns colegas de trabalho percebi que quanto maior o tempo de docência, maiores são as insatisfações, paranoias e desabafos. Chegando ao fim do ano, acaba o desespero de sala de aula, no entanto, começa um pior: saber se continuamos na mesma instituição, quantas turmas se formarão, qual instituição substituir por outra e se haverá gestores ainda interessados no seu perfil. Ao contrário de outras áreas, quanto mais velho se fica em sala de aula, menos atrativo se é para o mercado...
Nunca quis viver esta tensão profissional (acho que ninguém). No meu caso específico, nunca achei que o trabalho dignifica o homem – antes, penso que ele enriquece o patrão e arranca sua saúde a troco de uma justificação social e espiritual, construída por uma cultura burguesa e cristã. No entanto, tenho família(s) para sustentar e não herdei nenhuma herança que não fora o aprendizado acerca do que não se deve fazer financeiramente. Por isso, tenho que trabalhar e se for para fazer algo que sugará a minha alma, que seja pelo menos com um pouco de diversão em alguns momentos...
Por diversas vezes, me divirto muito em sala de aula. Conheço aluno(a)s bacanas e que merecem transcender a mera relação profissional. Meus colegas de trabalho, por viverem dramas semelhantes, acabam se tornando confidentes inestimáveis. Sempre que sou visto em lugares públicos, há um carinho legal por parte dos alunos, um respeito por parte de muitos pais. Felizmente, sinto que sou até bem sucedido no que faço.  Não me imagino fazendo outra coisa a não ser lecionar e pesquisar. Sinto que estou cada vez melhor em sala de aula. Meu quadro mais organizado, minha dicção mais teatralizada, a ironia mais afiada porém direcionada, o sarcasmo mais comedido e o domínio de conteúdo mais profundo e objetivo. Sinto também que consegui me organizar mais burocraticamente – o que em muitas instituições valem mais do que formação, talento e carisma. Minha relação com os alunos transcendeu a admiração pelo meu lifestyle e vem se constituindo pelo que obrigatoriamente tenho que oferta-los: cuidado, atenção, cordialidade e compromisso com sua formação pragmática.
A rigor, não teria muito que reclamar. Leciono em excelentes instituições de ensino e na maioria delas tenho um ótimo relacionamento com os alunos, com a coordenadação, a direção e até os pais. A cada ano, melhor me coloco no mercado e me desvencilho de comportamentos, crenças e valores que por mais nobres que possam parecer não me levam a uma qualidade de vida melhor, nem faz com que ninguém se beneficie diretamente com isto. Então, a experiência traz alívio...
Uma das últimas crenças que rompi foi em relação a acreditar que o que move as instituições de ensino no Brasil seja a educação, a formação crítica e multidisciplinar, o respeito pelo profissional. No Brasil, professores são tratados pelas instituições como freelancers na hora do pagamento, mas como santo milagreiro na hora dos problemas. Possuir formação acadêmica pode ser válido se o objetivo é se concursar numa instituição federal, mas que nada vale para nem sequer conseguir um aumento de salário na educação básica. Nos cursinhos pré-vestibulares, penso que se não houvesse CLT, estaríamos a esta hora pagando para termos a honra de dar aulas para turmas com cerca de 100 alunos por sala. Se há um feriado, recesso, todos recebem e os alunos continuam pagando a mensalidade, mas o professor, o freelancer, não pode receber, porque não foi “dada a aula”. No mesmo circo, os alunos estão cada vez menos interessados no que temos a dizer. A impressão é que há uma relação comercial estabelecida: os proprietários querem vender um produto – a aprovação, os alunos querem compra-la a todo custo – ilicitamente; e nós, professores, somos os que dificultam a transação comercial por simplesmente fazermos o nosso trabalho. Educação no Brasil é mercadoria made in china, com embalagem bonita e sem garantias. Por um tempo, acreditei que poderia desenvolver a capacidade critica dos alunos, descortinar um universo de teorias e visões de mundo. No entanto, com pouco tempo percebi que isso não se cobra no vestibular, portanto, não é mercadoria relevante. Ainda, corre-se o risco de se ofender a “crença” de um aluno e o seu “pa(i)trocinador” não quer ver o desempenho de seu atleta ser desgastado com ginástica mental desnecessária –  no entanto,  paradoxalmente, espera –se que “construamos” valores e repensemos  a cultura. O que muitos não consideram é que aquele que mais é afetado em seus valores é justamente aquele que é posto em réu num julgamento pautado pela toga da conveniência.
Estou consciente do meu papel profissional. Não tenho que dar aula... Tenho que dar show! Não tenho que construir e transmitir uma ideia... Tenho que formatar uma síntese de fácil assimilação e reprodução! Sem problemas depois que se compreende a engrenagem. O triste é ter desvio de função na área e a ainda receber pouco por isso. Não me entendam mal. Acho que como seres humanos, não podemos nos restringir à uma avaliação objetiva ou trato meramente profissional com aqueles que nos chegam. No entanto, não quero, não posso e não devo ser pai, padre, psicólogo ou amante de pais, alunos e responsáveis. Não sou mal remunerado perante as minhas necessidades, mas acho que perante o que se espera que façamos, deveríamos ter três férias ao ano, duplo descanso remunerado e indenização por insalubridade, além de seguro contra Burnout. Talvez assim, comece a ser interessante se tornar professor nos dias de hoje no Brasil.

Att.
Diego A.