sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

"A escola não educa, a escola qualifica o filho educado" (Içami Tiba)


Nesta semana recebi um email encaminhado pelo diretor de uma recente escola que comecei a lecionar. Sempre que sou convidado por instituições de educação básica para dar aulas, sobretudo de Filosofia e Sociologia, a demanda vem acompanhada da expectativa de que eu me converta, num intervalo de 50 minutos semanais, em arauto do evangelho ideológico burguês. Evangelho, porque se trata de uma justificativa moral, cristã, de “construção de valores”; burguês, porque esta prédica está eivada de interesses medíocres.
No fundo, o que se espera é que a Filosofia (entendida ainda por estes como sendo a famigerada “moral e cívica”, do tempo de meus pais) seja o instrumento capaz de levar os infantes ao desenvolvimento de valores que podem ser postos em paralelo, tais como: respeito/servidão; cordialidade/sujeição; cidadania/apatia. O professor, neste caso, verte-se em instrumento de domesticação, além de profissional responsável, na melhor das hipóteses,  por um processo que deveria ter sido iniciado no único lugar onde ele jamais deveria ter saído: o próprio lar.
Há um provérbio que diz que a sociedade é um grande corpo no qual a família é a sua célula-mater. Daí se conclui que uma célula primária doente gera uma metástase que afeta toda a estrutura corporal: “Família doente, sociedade doente”. O que percebo é que a própria sociedade já se deu conta disso, mas não se julga capaz de operar uma profilaxia própria na sua estrutura interna, e com este desvio tenta projetar, a todo (e alto) custo a solução, a cura, para as instituições de ensino. Crê-se que o professor é o médico curador de almas, mas mal sabem que muitas vezes este mesmo vem de um processo também enfermiço, uma vez que faz parte dessa mesma sociedade... Não se enganem... banco de faculdade não faz ninguém, moralmente, melhor ou pior. A verdadeira educação começa em casa e, no máximo, se estende para a Igreja, o Centro Espírita, a Mesquita...
Dentro dessa linha de pensamento, transcrevo abaixo o texto que me foi enviado. Note que se trata de um texto escrito por quem vivencia dois universos profundamente ligados ao comportamento social: a psicologia e a docência. Segue a sua defesa...

Att.
Diego A.





Valores morais na escola: perigoso veneno! 
Na edição passada, meu artigo versava sobre a permissividade dos pais e a insistência da escola em complicar coisas simples, quando deveria simplificar e levar o aluno a resolver seus problemas analisando a forma mais fácil de fazê-lo.
Aí, alguns dos meus cinco leitores trouxeram-me à lembrança o meu comentário final, "A escola ensina, a família educa". Como se geraram polêmicas (que legal, adoro isso!) e certas dúvidas, é importante refletir sobre o fato:
A escola não tem o direito de ensinar valores morais para a criança: esta é uma tarefa da família!
O papel de uma escola que realmente educa para a vida é de analisar os fatos surgidos nas discussões em sala de aula, quando os conteúdos ministrados, sempre de forma contextualizada com a vida e a realidade façam sentido na vida do aluno (só se aprende aquilo que atribuímos sentido ou valor), onde este aprenda a analisar por si só, para que faça suas escolhas com autonomia, ética e responsabilidade.
Educador dizer o que é certo ou errado anula o sujeito e seu poder de análise, põe em risco a liberdade, destrói a autonomia do estado laico e fere o livre arbítrio. Explicar regras e leis, ensinar o que é respeito, ética e responsabilidade é oportunizar ao aluno a liberdade de se pensar prós e contras de cada ato, optando por aquilo que julga mais sensato, mais coerente, justo consigo e com seu meio.
Dar noções de mundo, de cidadania é papel da escola. Dizer o que é certo ou errado é a família que tem o direito e o dever. A escola pode dizer o que é permitido pela LEI e o que CONTRARIA A LEI, pode e deve analisar as conseqüências dos atos, numa reflexão conjunta; ou seja: uma avaliação das escolhas, dos prós e contras de nossos atos, um despertar crítico, mas sem levar alunos a juízos de valor, ditames de ideologia ou a dependência da opinião de outros, muitas vezes incertas.
Não se pode, na escola, por exemplo, dizer que o que os assassinos da menina Isabella fizeram algo certo ou errado: pode-se informar que matar ou machucar alguém é crime, que isto fere as normas sociais e que a sociedade rejeita com veemência tais atitudes. Dizer que roubar ou matar é errado (ou dizer que é certo) é tarefa da família de origem, é claro, muitas vezes preconceituosa, mas ainda é direito da família.
Se a família é estruturada ensina valores, como justiça, honestidade, sinceridade, respeito e valores morais em geral, fazendo a criança se estruturar socialmente. Ao ir à escola, a criança aprende as conseqüências de praticar atos lícitos ou ilícitos, analisa se respeitar os outros lhe dá o direito de exigir respeito e daí deve ser estimulada a tirar suas conclusões. Se a família é desestruturada e ensina valores que ferem leis e valores socialmente aceitos, é na escola que a criança aprenderá as conseqüências de tais ações e aprende alternativas de conduta, e, por si só, exercer suas escolhas verificando e refletindo sobre sua vida, sua educação familiar e concluindo o que é melhor para si. Se a família não educa de forma adequada, não é a escola que deve assumir o papel dos pais. Mas ao ensinar a pensar com ética, responsabilidade e consciência, evitaremos mais famílias inadequadas em breve.
A escola nas últimas décadas absorveu atitudes assistencialistas, ajudando aos governantes inescrupulosos a manter as desigualdades sociais, promoveu, sem saber a falta de senso crítico e a dependência da maioria da população da "santa" ajuda do governo. Também absorveu funções dos pais, dos dentistas, médicos e psicólogos, num arremedo de ajuda verdadeira que só tira a confiança do aluno e sua capacidade de agir e pensar por si só.
Com isto, muitos valores morais "tortos" e opiniões pessoais de professores passaram a ser ensinadas nas salas de aula, abrindo brechas para que desajustes fossem ensinados pela autoridade na sala, raramente questionadas por alunos que em casa têm pouco ou nenhum diálogo com os pais. A seguir, relato algumas "pérolas" ouvidas de seus professores por meus pacientes;
- "Nordestinos aprenderam a ser preguiçosos, quem trabalha e sustenta aquele povo somos nós, aqui do Sul." (racismo, xenofobia, preconceito e erro de conclusão em poucas palavras)
- "Se você leva um soco injustamente, revide! Pague na mesma moeda" (eu ouvi quando era aluno, há menos de vinte anos, de professor que ainda hoje atua).
- "O catolicismo é a primeira religião do mundo, depois vieram outras seitas. Se é a primeira, é a que é mais certa." (O catolicismo é uma religião relativamente nova; é apenas uma das seitas do cristianismo. Existem muitas outras religiões mais antigas)
Eu mesmo ouvi professores falando que faculdade não ajuda ninguém a melhorar de vida e que o certo é agir no "olho por olho, dente por dente". Por sorte sempre questionei tudo, não ficou em mim nada disso. Ufa!
Quando se acredita que professores devem passar valores morais na escola, corremos o risco de termos mestres com desajustes de comportamento ou ideias distorcidas (e não são poucos que possuem preconceito, rancores, medos) sobre o mundo, passando seus valores pessoais como se fossem verdades da vida aos nossos filhos.
Ao demonstrar uma conduta justa, uma avaliação adequada, critérios e métodos, o professor já fala o necessário de suas convicções e valores. E ajuda com isto. Basta... De resto, é ensinar a pensar e refletir antes de agir.
Pensemos nós sobre o que ensinamos e o que devemos ensinar: ciência e justiça ou "achismo" e parcialidade?


Psicólogo clínico e professor universitário (INESA); especialista em Neuropsicologia e Aprendizagem e Mestre em Educação e Cultura.
Email:
 gilmardeoliveira@uol.com.br


terça-feira, 28 de dezembro de 2010

"E quando vi, eu já era dois" (parte 1)


Venho visitando pouco os amigos... Na verdade, descobri que me restaram um número muito pequeno deles. Um destes está fazendo doutorado na Espanha, o outro, também, só que na Unicamp. Sobraram-me outros três bem próximos e nos encontramos com certa regularidade em mesas de jogos ou no Kwon. Fora isso, venho nutrindo uma amizade legal com colegas de profissão. Poucos, diga-se de passagem, também. Um deles, por coincidência, também está na Espanha a turismo e os outros, viajando pelo norte do Brasil. O que há de comum nisso tudo? Simples – ou tétrico – todos os meus atuais amigos estão longe de mim e mesmo os que estão perto, compartilham de uma não-vida: a virtualidade; ou de uma vida distante do cotidiano: a marcial. Tudo bem, o Kwon me oferece uma gama de “irmãos de treino” que não tenho que reclamar: são atenciosos, hilários, nerds. Possuímos diversas afinidades culturais e que rendem boas conversas (e risadas) pós-treino. Há também casais de amigos muito valorosos, de ótima companhia espiritual e gastronômica. Mas ainda assim falta algo...
Dias atrás reencontrei um velho amigo, daqueles que você se vê precipitado ao contato em tenra infância. Passamos por muitas coisas juntos no início da adolescência, embora nunca tenhamos sido grandes confidentes. Compartilhei com este amigo as primeiras lisergias, os primeiros discos de rock, as primeiras tatuagens, os primeiros vestibulares, as primeiras decepções amorosas... Numa época em que pensei que ia partir dessa para uma pior – e que ele iria junto acendendo o pavio – descobrimos caminhos espirituais distintos, mas necessários em nossa “regeneração”. A partir de então, nos afastamos um pouco. Logo ele se casou e foi ter uma vida mais reservada. A vida seguiu... Mas vez ou outra nos encontrávamos ainda nos corredores da UFG e conversávamos sobre poucas e boas coisas. A vida seguia para mim também...
 Reencontrando esse amigo recentemente, numa confraternização de escolas, me veio um pensamento/questionamento: por qual razão não conseguimos sustentar as mais velhas amizades quando elas são as que mais profundamente nos constituíram? Penso que, geralmente, quando tais amizades começam desde a infância e atravessam a adolescência elas estão sujeitas às intempéries dos hormônios e das mudanças de personalidade. Por diversas vezes ofendi amigos, proferi impropérios, rompi temporariamente relações por mero capricho, crise e inconstância – e olha que nem tenho TPM. Penso que todo adolescente já deve ter findado diversas relações por crises meramente hormonais; devem ser por isso que se arrependem e sofrem muito mais do que qualquer adulto em fim de relação.
Em outra via, existe também um agravante com amizades que florescem cedo: a cultura é uma coisa dinâmica. Refiro aqui a cultura como um conjunto de crenças, valores, costumes e tradições que constitui a identificação de um sujeito histórico-social. A cultura individual sofre transformações e redimensionamentos a vida inteira, mas são em duas fases que penso eu, ela mais se cristaliza: 1) na infância – com a “(des)educação da família”; 2) na adolescência – com a “(des)educação social”. Na primeira fase as amizades que surgem são reflexos da identidade que se construiu. Na verdade, não há nada muito complexo em termos culturais, por isso as companhias afloram. Na segunda fase, começam a afunilar o circulo de amizades. Tais são orientadas por predileções, gostos estéticos, juízos de um mundo paralelo, expectativas de um porvir caricato. E é aqui que começam os problemas (ou não). Com o tempo, estes mesmos gostos que outrora unificaram simpatias, agora se reestruturam e buscam alçar outros voos gustativos e existenciais. E nisso, há rupturas. E em todas elas, o seu efeito brusco promove cortes, ardências e dores.
É fato, não sei se é da natureza (condição) humana ou se é parte da cultura judaico-cristã que estamos inseridos que faz com que não sejamos capazes de aceitar a diferença. O outro é sempre o errado, o indigesto, o herege. Nossas tendências são sempre justificadas, castas de intenções e nobres de projeções. Quando as amizades começam a se efemerizarem – e nem digo por brigas, traições, etc – é por que estas já não encontram mais o calor da afinidade promovida pelo compartilhamento de tendências e experiências. Amizade sincera e madura é algo raro e poucos de nós somos capazes de sustentá-las.  Nós estamos sempre em mudança, mas não podemos aceitar que outros mudem. Compreensível, pois mudanças geram rupturas e a zona de segurança que mantém uma amizade não pode ser atravessada sem percalços. Somos egoístas, enfim, e muitas amizades nada mais são do que duplicações do egoísmo: um “ambi-egoismo” – se é que isso exista.
Nesse trajeto de vida, perdi muitas amizades. Algumas delas (muitas) me sinto diretamente responsável pelo seu fim. Fui intransigente, relapso, distante. Em outras, fui próximo demais, atencioso ao extremo e acabei me anulando. Em todas elas cometi erros que redundaram em um afastamento que só vim perceber seus efeitos danosos tempos depois, bem como suas causas. Por outro lado, muitas amizades se foram por “culpa” não necessariamente minha. Sempre tive um imã para atrair pessoas com sérios problemas emocionais (não mais ou menos do que eu). Muitas dessas exigiam de mim algo além do que poderia oferecer. Queriam que eu representasse a cura para os seus males – que se caracterizavam por uma dose diária de exclusividade e elogios. Algumas dessas amizades eu sinto muita falta. Outras merecem de fato estarem no meridiano atual que se encontram...
Como disse no inicio, me falta algo. Sempre me sinto um apátrida ou um Aquiles tentando provar para mim mesmo que a vida realmente vale a pena e que há um propósito para a sua execução. Não sou depressivo, muito menos maníaco suicida, mas sempre questiono o sentido da existência. Dizem que o vazio existêncial é a ausência de Deus em nossas vidas. Que desde a aludida e metafórica queda do homem, o seu distanciamento se apresenta como angustia profunda por esse retorno. A teoria das almas gêmeas seria na verdade, uma metáfora para a nossa re-conexão necessária com a divindade. Por isso que sempre nos sentimos incompletos nas relações socais, sendo a paixão apenas um anestésico para refrear a nossa crise espiritual... Então as vezes, acho que tenho saudade de Deus!
Mas não me entendam mal. Encontro-me hoje bastante satisfeito com as amizades que cultivo e com o amor que compartilho entre os que me são caros. Com o tempo, aprendi a respeitar mais o momento de cada um – embora eles entendam como afastamento ou não afetividade. Sobraram-me amigos valorosos que, dependendo do contexto, posso sempre contar com um ou outro. Aprendi que o grande equivoco é buscar a integralidade da cumplicidade. Ninguém pode me entender completamente, assim como não posso entender completamente os outros. Tenho minhas crises e somente a mim competem a sua resolução, assim como os outros têm as suas e competem a eles a administração. Pode parecer muito frio de minha parte, mas vejo as amizades nessa relação de custo benefício: elas servem para partilhar momentos felizes ao nosso lado e nos escutar quando precisamos não de resolução, mas apenas de atenção. O resto compete somente a nós, seja em cuidarmos de nossa carência, de nossa solidão, ou de gerirmos o nosso afastamento de Deus.

Att.
Diego A.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Entre o ócio e o negócio



É chegado o fim do ano letivo. Depois de metade de uma década venho me questionando acerca da minha continuidade neste ramo de entretenimento, arte, padecimento, menos educação...Conversando com alguns colegas de trabalho percebi que quanto maior o tempo de docência, maiores são as insatisfações, paranoias e desabafos. Chegando ao fim do ano, acaba o desespero de sala de aula, no entanto, começa um pior: saber se continuamos na mesma instituição, quantas turmas se formarão, qual instituição substituir por outra e se haverá gestores ainda interessados no seu perfil. Ao contrário de outras áreas, quanto mais velho se fica em sala de aula, menos atrativo se é para o mercado...
Nunca quis viver esta tensão profissional (acho que ninguém). No meu caso específico, nunca achei que o trabalho dignifica o homem – antes, penso que ele enriquece o patrão e arranca sua saúde a troco de uma justificação social e espiritual, construída por uma cultura burguesa e cristã. No entanto, tenho família(s) para sustentar e não herdei nenhuma herança que não fora o aprendizado acerca do que não se deve fazer financeiramente. Por isso, tenho que trabalhar e se for para fazer algo que sugará a minha alma, que seja pelo menos com um pouco de diversão em alguns momentos...
Por diversas vezes, me divirto muito em sala de aula. Conheço aluno(a)s bacanas e que merecem transcender a mera relação profissional. Meus colegas de trabalho, por viverem dramas semelhantes, acabam se tornando confidentes inestimáveis. Sempre que sou visto em lugares públicos, há um carinho legal por parte dos alunos, um respeito por parte de muitos pais. Felizmente, sinto que sou até bem sucedido no que faço.  Não me imagino fazendo outra coisa a não ser lecionar e pesquisar. Sinto que estou cada vez melhor em sala de aula. Meu quadro mais organizado, minha dicção mais teatralizada, a ironia mais afiada porém direcionada, o sarcasmo mais comedido e o domínio de conteúdo mais profundo e objetivo. Sinto também que consegui me organizar mais burocraticamente – o que em muitas instituições valem mais do que formação, talento e carisma. Minha relação com os alunos transcendeu a admiração pelo meu lifestyle e vem se constituindo pelo que obrigatoriamente tenho que oferta-los: cuidado, atenção, cordialidade e compromisso com sua formação pragmática.
A rigor, não teria muito que reclamar. Leciono em excelentes instituições de ensino e na maioria delas tenho um ótimo relacionamento com os alunos, com a coordenadação, a direção e até os pais. A cada ano, melhor me coloco no mercado e me desvencilho de comportamentos, crenças e valores que por mais nobres que possam parecer não me levam a uma qualidade de vida melhor, nem faz com que ninguém se beneficie diretamente com isto. Então, a experiência traz alívio...
Uma das últimas crenças que rompi foi em relação a acreditar que o que move as instituições de ensino no Brasil seja a educação, a formação crítica e multidisciplinar, o respeito pelo profissional. No Brasil, professores são tratados pelas instituições como freelancers na hora do pagamento, mas como santo milagreiro na hora dos problemas. Possuir formação acadêmica pode ser válido se o objetivo é se concursar numa instituição federal, mas que nada vale para nem sequer conseguir um aumento de salário na educação básica. Nos cursinhos pré-vestibulares, penso que se não houvesse CLT, estaríamos a esta hora pagando para termos a honra de dar aulas para turmas com cerca de 100 alunos por sala. Se há um feriado, recesso, todos recebem e os alunos continuam pagando a mensalidade, mas o professor, o freelancer, não pode receber, porque não foi “dada a aula”. No mesmo circo, os alunos estão cada vez menos interessados no que temos a dizer. A impressão é que há uma relação comercial estabelecida: os proprietários querem vender um produto – a aprovação, os alunos querem compra-la a todo custo – ilicitamente; e nós, professores, somos os que dificultam a transação comercial por simplesmente fazermos o nosso trabalho. Educação no Brasil é mercadoria made in china, com embalagem bonita e sem garantias. Por um tempo, acreditei que poderia desenvolver a capacidade critica dos alunos, descortinar um universo de teorias e visões de mundo. No entanto, com pouco tempo percebi que isso não se cobra no vestibular, portanto, não é mercadoria relevante. Ainda, corre-se o risco de se ofender a “crença” de um aluno e o seu “pa(i)trocinador” não quer ver o desempenho de seu atleta ser desgastado com ginástica mental desnecessária –  no entanto,  paradoxalmente, espera –se que “construamos” valores e repensemos  a cultura. O que muitos não consideram é que aquele que mais é afetado em seus valores é justamente aquele que é posto em réu num julgamento pautado pela toga da conveniência.
Estou consciente do meu papel profissional. Não tenho que dar aula... Tenho que dar show! Não tenho que construir e transmitir uma ideia... Tenho que formatar uma síntese de fácil assimilação e reprodução! Sem problemas depois que se compreende a engrenagem. O triste é ter desvio de função na área e a ainda receber pouco por isso. Não me entendam mal. Acho que como seres humanos, não podemos nos restringir à uma avaliação objetiva ou trato meramente profissional com aqueles que nos chegam. No entanto, não quero, não posso e não devo ser pai, padre, psicólogo ou amante de pais, alunos e responsáveis. Não sou mal remunerado perante as minhas necessidades, mas acho que perante o que se espera que façamos, deveríamos ter três férias ao ano, duplo descanso remunerado e indenização por insalubridade, além de seguro contra Burnout. Talvez assim, comece a ser interessante se tornar professor nos dias de hoje no Brasil.

Att.
Diego A.

Caminhos filosóficos Pt.1

Interessante como certas coisas tomam rumos diferentes na nossa vida e às vezes retornam com profusão e sentido maior... Comecei a graduação em Filosofia imerso nas leituras de Nietzsche, mesmo sem entender muito do que se tratava, embora crente que estaria no rumo. Com o tempo, e com as leituras dos clássicos, me distanciei deste autor exatamente por aceitar que para entendê-lo, deveria, antes, compreender os problemas e autores que ele tratava/criticava. Para isso, era essencial o estudo dos clássicos. Conclui que precisava estudar o prévio e com o tempo, este se tornou o necessário e o bastante... Por pouco tempo...
No meio da graduação, comecei a me interessar por Lógica e Filosofia da Linguagem. Foi um flerte rápido, efêmero, de efeito inebriante, produzindo um frenesi inicial e deixando marcas profundas e jamais removidas, clamando por uma recaída ou feedback, mesmo frente a novas resoluções e momentos. Acho que é isso que chamam em outros contextos de “paixão”. Mas como toda paixão, passou, embora deixando rastros... Logo em seguida me veio a obra de Jean Paul Sartre, causando impacto semelhante ao que Nietzsche promoveu em mim, na inconsequência da juventude. O diferencial é que agora sabia dialogar mais com a tradição filosófica, o que me permitiu mergulhar mais neste filósofo sem correr o risco de me tornar panfletário ou entusiasta demais, como fora com o “bigodudo”.
Em todo caso, como leitor mais curioso do que disciplinado, li apenas os textos básicos de Sartre, e muito do que se comentou sobre ele – como todo “bom” estudante de filosofia no Brasil faz... E o que me motivou nas leituras de Sartre mesmo eu não sendo ateu? Talvez o mesmo que me motivou ler outrora Nietzsche e tempos depois Freud: a capacidade que ambos tiveram de (des)construir significados sem a necessidade de algo estritamente metafísico.  Mesmo sendo teísta, a justificativa para valores e comportamentos que transcendem a fundamentação teológica já me causam fervor e admiração, mesmo não concordando por diversas vezes...
Jean Paul Sartre, enquanto existencialista, defende a tese de que “a existência precede a essência”. Isto significa romper com uma cadeia de justificação anímico-metafísica, afirmando que o homem formata a sua existência somente depois de se projetar no mundo. Em outras palavras, não existe um Deus criador, que nos concebeu e criou a partir de uma teleologia própria e prévia. Sendo assim, o homem meramente existe, e a sua “essência” ou projeto será apenas aquilo que ele fizer de si mesmo.  O homem em Sartre, portanto, nada mais é do que o seu projeto, um “ser-para-si”, aberto à possibilidade de construir ele próprio a sua existência, sem que para isto haja modelo ou essência para lhe orientar o caminho. Seu futuro se encontra disponível e aberto, e dos dizeres de Sartre: “condenado a ser livre”... Se no homem a existência “precede a essência”, ele é responsável por aquilo que é ou por suas escolhas, uma vez que nada pode condicionar definitivamente o seu comportamento, nem uma maldição hereditária, nem um “gene egoísta”. Escolher o que ser é afirmar ao mesmo tempo o valor do que escolhemos, como e o porquê desta escolha...
Sartre afirma que: “não importam o que os outros fizeram de você. O que importa é o que você fará de ti a partir do os outros supostamente o fizeram”. Isto implica em admitir que, embora possamos ser pré-condicionados por fatores, pessoas e crenças, o que torna inestimável o valor de nossas ações é administração que operamos das circunstâncias. Neste sentido, somos intrinsecamente e, por que não dizer, exclusivamente responsáveis pelo nosso ser-no-mundo. Somos, portanto, livres. Não no sentido meramente arbitrário, de escolhas sem consequências, ou ações sem reações. Somos livres na medida em que temos as condições de escolhas e que não há nada que determine inexoravelmente nosso arbítrio.
O homem, ao perceber que “não há um Deus”, ou um projeto pré-determinado para sua existência se angustia, exatamente por agora experimentar uma verdadeira liberdade. A sentir-se como um vazio, o homem vive a angústia da escolha. Doravante, muitas pessoas não suportam essa angústia, fogem dela, escorando-se naquilo que Sartre nomeia como “má fé”. Tal se traduz por atitude característica do homem que finge escolher, sem na verdade escolher, imaginando que seu destino está traçado, que os valores são dados.
Nossa existência, como pensa Sartre, deve permear a verdadeira liberdade. Tal senda afirma a condição existencial do homem sobre a terra: atesta a sua finitude, estabelece o seu verdadeiro fundamento ontológico, e conclama uma responsabilidade ética frente aos seus atos, uma vez que somente ele é o arauto de seu destino, baluarte de suas escolhas.
Embora tenha me afastado das leituras de Nietzsche, não consigo desvencilhar por completo sua filosofia “aristocrática” daquilo que pensa Sartre sobre a existência humana. Nietzsche afirma que somos produtores de valores e que é preciso identificar os instrumentos sociais que domesticam os indivíduos para que ele aja de acordo com valores dados. Contrapondo, Nietzsche valoriza o “espírito livre”, que recusa a imposição de normas e fórmula prontas de comportamento. Não se trata, portanto, de desprezo por valores, mas de uma atitude necessária de constante questionamento acerca de nossas crenças e padrões valorativos.
O que é central - seja em Nietzsche nos conduzindo à reflexão sobre as “amarras teo-psico-sociais” que condicionam nossos comportamentos a agir de forma não-livre, ou Sartre afirmando que mesmo mediante tais amarras, ainda assim somos responsáveis pelas consequências advindas - é que ambos colocam a autonomia como pedestal necessário ao alicerce da verdadeira “humanização”. Comecei meu interesse em Filosofia por Nietzsche e hoje me vejo emaranhado no pensamento de Sartre, mas inusitadamente com uma aura nietzscheana. O elo ou teia, sem dúvida para tal entrelaçamento ou fator cíclico é exatamente o que pulsa em mim desde a adolescência e que continua vivo, a despeito de “outras amarras”: a inquietação por não aceitar estruturas prontas e acabadas, mas por outro lado, admitir a responsabilidade que uma “náusea sartreana” promove – a verdadeira “boa fé”, enfim, por aceitar que embora “só”, somos eternamente livres, doravante, responsáveis pela construção de nossa existência.

Att.

Diego A.

segunda-feira, 6 de dezembro de 2010

Complexo de Aquiles Pt.2

Sempre gostei do mito de Aquiles... Muito mais pelo seu aspecto psicológico e filosófico, do que literário. Vejo nele um arquétipo que representa a condição existencial da maioria de nós sobre a terra: o temor pela finitude, o pavor frente à possibilidade de se ter uma vida restrita ao comum , e a angústia de ter o seu destino condicionado ao arbítrio de alguém chamado "acaso".  Aquiles representa todos  aqueles que cientes de sua humanidade e da distância que nos separa da infinitude dos deuses, olha para si e encontra as condições necessárias para atingir um outro tipo de imortalidade, mesmo que a custo do sofrimento e mediante o temor do fracasso....
Segundo a mitologia grega, Aquiles teria escolhido o caminho da honra e da glória, mas também da existência curta e breve. Temia uma vida apagada e não relevante, doravante, tranquila e longeva. Sua experiência afirmava a assertiva de que “os eleitos dos deuses morrem jovens”.... Doravante tal  "eleição", Aquiles se mostrava indigesto quando à veneração que os mortais - seus iguais - tinham perante os deuses. Sua obsessão por atingir a imortalidade não era para se igualar a um deus, mas para fazer de si algo distinto deste, porém mais nobre. Tal distinção valorativa se referia a ter, pelos atos bélicos, ou pelas palavras de efeito, uma ação que permitisse com que seu nome fosse gravado na memória do porvir. Uma vida plena de novidades e anseios, de esperanças e de consolações nos atos gloriosos, ao contrário de uma vida tediosa, porém, ilimitada dos deuses – que por sua triste sorte, indefinidariam o seu tédio na poeira do tempo, invejando os mortais por fazerem de sua vida uma nova constância...
Numa perspectiva filosoficamente existencialista, a tragédia de Aquiles nos mostra o nosso temor frente à finitude, mas ao mesmo tempo o nosso destemor com o adiante, uma vez que só nos resta  construir o próximo segundo e não mais aguardar tétricamente pelos próximos minutos... Não se trata de um fatalismo que anula a nossa ação ao romper com a esperança de uma imortalidade. Ao contrário, Aquiles vê na imortalidade física uma pré-condição para o tédio, ao se passar os usufrutos efêmeros. Um deus sempre saciado, imperecível, que jamais padecerá da fome, do frio ou da morte por uma espada, jamais saberá qual o frescor da novidade e do anseio, uma vez que isso não habita em seu espírito. Ao contrário, um homem ciente de seu fim, sem esperanças concretas da realidade de um post-mortem, faz do seu instante algo único. Luta, levanta, chora, ri, confabula, ama aos outros e apaixona-se, pouco se ama e muito se estima... Nesse afã, faz de cada dia uma aurora de novidade e cada anoitecer um crepúsculo de realizações. Distantes disto, aos deuses só restam a lamúria dos mortais e a honra fingida por parte daqueles que os temem, mas não os amam verdadeiramente. É nesse sentido que Aquiles afirma que “os deuses têm inveja de nós”. Somente os homens podem ser arautos de seu destino e imprimir na posteridade a marca de seus feitos e palavras, que os libertam do esquecimento e tingem a sua marca indelével na memória dos que virão, formatando assim um novo tipo de imortalidade, mais duradoura e inebriante.
Trazendo para meu universo, como afirmei, sempre gostei de Aquiles, por de alguma forma me enquadrar em seu arquétipo. Desde muito cedo sempre me senti um apátrida. Sem lar, sem direção, sem nacionalidade. Tinha a certeza de que não viveria muito tempo e queria sempre encontrar uma explicação para o fundamento de certas assertivas da qual insistiam em me catequisar. Por diversas épocas, sentia que tinha algo a realizar “aqui na terra”, só nunca soube o que era exatamente. Nunca gostei, portanto, de ter uma vida comum. Nunca fui um aluno, um jogador, um músico, um filósofo ou amante comum. O óbvio, o que tem respostas prontas, os caminhos já trilhados, nada disso se fez presente e inexorável em minha vida. Sempre optei por caminhos alternativos e por pontes e areias movediças, mas que ao final me traziam, senão o lugar, ao menos a certeza de que o caminho mais uma vez se bifurcou – e que maravilha e densidade seriam trilhar novamente o desconhecido em busca de algo que reclama a sua existência numa fagulha de expectativas.
Sinto que a minha existência deve servir para algo mais do que simplesmente envelhecer sentado a uma cadeira recordando aquilo que não vivi. Sinto que preciso mudar algo que não seja aquilo que todo mundo quer mudar: os outros. Vejo minha vida e creio que preciso romper barreiras, dogmas cristalizados e complexos difusos. Só assim, serei capaz de transcender uma vida comum, apagada, e colocar a minha existência no rol digno dos quadros que precisam ser lembrados pela posteridade, seja para deleite ou para escárnio.

Att.
Diego A.

sábado, 4 de dezembro de 2010

Complexo de Aquiles Pt.1

Meu aniversário foi há quase dois meses. No entanto, só hoje me dei conta que estou chegando aos trinta anos.  Bem, é uma marca boa de sobrevida para quem acreditava que não ia passar dos vinte e três... Daí, hoje, refletindo sobre minha vida, vi que já passei por muita coisa e que é possível que eu continue vivo por muito tempo ainda, o que significa acumular xp suficiente para um up necessário para a próxima existência. Mas ainda assim, há algo que me atormenta de modo velado, sútil, mas que se prolifera como metástase: uma febre do “ser”.
Quando disse que não acreditava ter muito tempo de vida eu estava dizendo a verdade. Começou com uma cisma de criança e evoluiu para uma quase certeza cartesiana indubitável. Quando criança, “Diego” era o nome da moda. A homenagem imediata era ao homônimo jogador argentino que “brilhava muito” em 1982. Minha mãe queria o nome “Vinicius”, para combinar com o “Moraes” de meu pai. Destarte, “Vinicius” não era um nome bom, de qualquer forma, e meu pai queria prestar uma homenagem ao seu ídolo (!)... Pois bem, a minha inculcação dizia respeito a nunca ter conhecido alguém que tivesse o meu nome, contendo mais de vinte e três anos. Esse era o recorde. Daí achava que quando chegasse nessa idade seria arrebatado para Sodoma ou Tattooine. Depois de um tempo, meu problema passou a se direcionar para uma dificuldade específica que tenho até hoje: a de projetar o futuro. Parecia que todos os meus planos não atravessariam nunca a idade fatídica de vinte e três anos e qualquer esforço seria um desgaste que anteciparia ainda mais este momento. Já na adolescência, meu ritmo de vida não era dos mais edificantes. Para terem uma ideia, cheguei numa época a acreditar que era um avatar do Jim Morrison. Comecei a ler Jack Kerouc, Aldous Huxley, Kafka e Nietzsche, para restringir por aqui o meu nível de entorpecimento. Então, para bom caixeiro viajante um conjunto de referências literárias destas já é suficiente para definir meu #wayoflife de tempos atrás e comercializá-lo com a curiosidade alheia.
Com o tempo as coisas melhoraram. Acabei centrando minhas ideias, desisti por hora de ser um astro do rock de vida breve e resolvi fazer uma faculdade e mergulhar em estudos ocultistas – quer dizer, as coisas não melhoraram tanto. Porém, já tinha passado a acreditar que tinha uma missão na terra e isto precisava ser cumprido até os trinta anos – o que me conferia uma sobrevida. Confesso que nunca soube o que, mas agora chegando aos trinta anos, mesmo com esta ideia messiânica já removida, sua impregnação cala no meu espirito e me cobra por algo que não sei o que é, mas que me atormenta direto...
Desde o final da adolescência venho sendo acometido por sonhos muito confusos. Neles, me vejo projetado no tempo em cerca de dois anos. Nisso, está tudo um caos e eu fico tentando compreender o que aconteceu. Num recente, sonhei que havia sido preso e fugido da cadeia. Quando voltei para casa, meu apartamento havia sido demolido, minha esposa casada com outro, minha mãe morta e eu careca (!). Parece engraçado, mas no sonho é uma angustia tremenda. Mas a parte mais tensa acontece quando eu acordo: olho para o lado e não consigo identificar quem está dormindo comigo, onde estou e que tempo e espaço eu me situo. Isso dura uns minutos, depois passa e eu fico impressionado o dia inteiro.  
É curioso, mas é justamente nesses sonhos que consigo, de alguma forma, (me)  projetar (n)o futuro. Já tentei fazer planos para mais de cinco anos, mas nunca consigo e tudo o que se forma na minha mente é um quadro impressionista e pontilhado. O triste disto, é que sinto que às vezes decepciono quem está ao meu lado com esta atitude por vezes pragmática ou finalista ao excesso, focando a vida no presente e nunca num futuro distante - que é o normal entre pessoas que unificam seus sobrenomes e almas. 
É fato, tenho dificuldades até mesmo em planejar o amanhã. Por vezes, sou acometido por coisas que nem sei se são reais e por outras que de tanta certeza de sua realidade me faz pensar que o melhor é estar aqui, quieto no presente, sem lançar os olhos para um passado que não recordo e nem me precipitar para um futuro incógnito, para não correr o risco de errar novamente, ou talvez, nunca acertar.

Att.
Diego A.

quinta-feira, 2 de dezembro de 2010

Dificuldades em ser um filósofo “comum”

Por diversas vezes sou questionado acerca de minha escolha acadêmica/profissional. Depois de um tempo - e com um relativo “sucesso” profissional – as perguntas sobre meu futuro econômico desapareceram. Tenho certeza que a maioria ainda pensa que num momento, tudo vai dar errado e eu vou ter que me isolar numa montanha, vivendo de fritada de insetos e bebendo caldo de cacto... Não escolhi ser professor de filosofia. Na verdade, nunca soube o que quis fazer profissionalmente (e na verdade nem sei ainda). Tenho resistências em acreditar que o trabalho “dignifica” o homem e sempre pensei que o curso de filosofia me traria outras vantagens, que não econômicas, mas que nem por isso, piores – ao contrário. Acabei me tornando professor por forças das circunstâncias e não me arrependo, por hora, disto. Em outra esfera, há aqueles que me questionam sobre meu consumo regular de drogas (!). Na verdade, hoje em dia, as perguntas que insistem em relacionar drogas e a atividade do filosofar também cessaram dado à minha postura declaradamente abstêmia. Como sabem que não bebo ou fumo e não uso outros tipos de drogas e ainda sou vegetariano, o velho estereótipo do filósofo “viajão” acaba não se aplicando a mim - e isto faz com que algumas pessoas já estejam “conformadas” com isto, embora sempre digam: “hum, sei...”.
No entanto, três rótulos ainda insistem em me fixar por parte daqueles que me conhecem há pouco tempo: a) “bissexual”; b) “comunista”; c) “ateu”.  Vamos lá para as justificativas e fundamentações.
a)         Não sou bissexual e nunca fui. Muitos pensam isto talvez por acharem que nos cursos de filosofia rola muita orgia (que curso de um federal não tem?) ou por que os primeiros filósofos gregos “eram” e, logo, todos os que estudam filosofia hão de ser. Bem, todos sabem que nada tenho contra a opção sexual de minorias. Já tive amigos gays e isso nunca foi um problema para mim. Sou a favor da união civil entre homoafetivos e se algum dia tiver uma pulsão por esta prática, levarei isso como um desejo e não como uma anomalia. Mas para a decepção de alguns, não sou bi, tri, tetra ou pan.
b)         Também não sou comunista. Penso que as pessoas assim nos tacham pela herança que as faculdades de ciências humanas angariaram nos últimos 30 anos por força das influências teórica-sociais vivenciadas pelos universitários de outrora. Outra hipótese é o fato de falar apaixonadamente em minhas aulas, de Marx. De fato, o acho um avatar, mas isso não faz com que eu acate as suas determinações materialistas ou venha a aceitar integralmente suas ideias. Também aprecio Nietzsche e Sartre, além do Ozzy, e nem por isso me nomeio Roquentin, saindo com uma cópia do Zaratrusta e cantando N.I.B nos corredores de escolas. Confesso que na adolescência tive uma fase “camarada”, me filiando à “UJS” e todos sabem que o meu voto sempre foi de “esquerda”, além de ser muito crítico ainda em relação ao capitalismo, do ponto de vista filosófico. Mas não, não sou comunista!
c)         Incrivelmente também não sou ateu. Não creio que as justificativas religiosas são boas para explicar o sentido da vida ou mesmo sua origem, da mesma forma como que acho que a ciência dá as suas tropeçadas e nem possui condições epistemológicas e metodológicas seguras para afirmar algo de forma irretorquível. Como todos sabem, me interesso muito por orientalismo e tenho uma visão de Deus muito próxima ao que certas correntes budistas apregoam, embora faça parte de uma doutrina declaradamente cristã.  Estudo o espiritismo por que não consigo encontrar em outro tratado uma explicação e operacionalidade para certas coisas que vivencio. Se um dia encontrar isso em outra forma explicativa, mesmo sendo a ciência, não teria problemas em romper com minhas crenças. No final das contas, pensando cientificamente, acho Deus uma hipótese muito boa, e pensando religiosamente, acho que a ciência ainda está caminhando rumo a algo mais transcendente que por hora nem ela é capaz de reconhecer.
Como podem perceber, não sou um filósofo convencional. Não sou ateu, nem comunista, nem bissexual, nem passo fome ou uso drogas. Na verdade, grande parte dos meus colegas de faculdade não se encaixa neste perfil simplista de “filósofo louco”. Talvez um ou outro se enquadre neste quadro barroco de woodstock, mas a maioria ainda são pessoas “normais”. O que nos unia e identificava era o desejo de tentar compreender o mundo sobre diversas perspectivas e dar significado a coisas distantes do senso comum. Alguns conseguiram isso bem, outros ainda estão na estrada. E eu... continuo vagando...como um filósofo que ainda busca a sua topografia existencial e teima em não se alojar no comum.

Att.
Diego A